“Sem dados, você é apenas mais uma pessoa com uma opinião.”
W. Edwards Deming
É comum, e até repetitivo, eu dizer que a pergunta por vezes é mais importante do que a própria resposta. Pois é: neste artigo, elas extrapolam o conceito e se tornam mais que uma constante no processo.
Só que antes de começarmos, é importante contextualizar. Na mineração de ouro, a Gold Room é a área de alta segurança da planta onde se concentram as etapas finais de recuperação, tratamento e fundição do material aurífero até a produção do lingote. Não estamos falando apenas de uma “sala onde se guarda ouro”. É parte do processo produtivo da mineradora e, dependendo da configuração da planta, recebe materiais com diferentes concentrações de metais preciosos, que passam por etapas de tratamento, pesagem, amostragem e fundição antes de chegarem ao produto final: Ouro!
Quando pensamos na segurança de uma Gold Room, é natural que as primeiras preocupações sejam fortificações, barreiras, controle de acesso, CFTV, vigilantes, cofre, lacres, transporte de valores, e por aí vai. E tudo isso é importante. Mas quando se acompanha efetivamente o processo produtivo, sua percepção muda significativamente.
Antes mesmo de se chegar finalmente ao lingote, existem materiais sendo processados, transferidos, secos, fundidos, manipulados, pesados e até amostras retiradas do produto final. E ainda depois, continuam existindo as aparas, escórias e outros materiais potencialmente valiosos, e que permanecem sob custódia, sejam para análise ou retornarem ao processo de fundição.
E o curioso: o lingote obtido na mina normalmente ainda não é ouro refinado. Trata-se do gold doré, uma liga contendo ouro, prata e outros elementos, posteriormente destinada ao refino.
Então, onde começa a Segurança de uma Gold Room?
A proteção de uma Gold Room combina Segurança, inteligência, controles operacionais, cadeia de custódia, segregação de funções, rastreabilidade e reconciliação metalúrgica ou controle contábil do metal.
CFTV, controle de acesso, alarmes, vigilância, cofres e até a comunidade do entorno, são camadas desse intrínseco sistema. Proteger um lingote é relativamente intuitivo. O desafio é proteger o valor enquanto ele muda de forma, recipiente, localização e custódia.
Antes de proteger, entenda onde está o valor
Para quem vem da Segurança, existe uma tendência natural de entrar em uma instalação crítica procurando portas, câmeras, fechaduras, alarmes, cofres e vulnerabilidades físicas, ou imaginando cenários de ataques armados ou "explosivos".
Tudo isso faz parte, mas em uma Gold Room, precisamos entender detalhadamente o processo. Se determinado material possui conteúdo recuperável de Au ou Ag, sua forma física pode ter mudado, porém o risco patrimonial não desapareceu.
E sim, você terá que aprender termos técnicos e até alguns elementos da tabela periódica. Ou você acha razoável exigir que todos saibam a linguagem da Segurança, como por exemplo viatura X carro; blindado X tanque de guerra; fardado X civil; enquanto você, aí sim, pode chamar as coisas pelo nome que quiser? Dizer pedra ao invés de rocha, um termo bem mais abrangente?
Além de demonstrar conhecimento e empatia, utilizar corretamente a linguagem técnica do cliente demonstra respeito e interesse pelo processo que estamos protegendo.
Segurança precisa conversar com Metalurgia
Talvez esse seja o principal insight. O Gestor de Segurança não precisa se transformar no responsável pela fundição. Não cabe a ele definir parâmetros de lixiviação, eficiência de recuperação, condições de electrowinning, temperatura de fusão, composição de fluxo ou metodologia analítica. Mas precisa entender o suficiente para perguntar:
Onde está o metal precioso? Em que forma? Quem possui a custódia? Onde ocorre a transferência de responsabilidade? Existe pesagem e identificação? O que acontece com materiais intermediários, recuperáveis e amostras? Quem reconcilia o inventário? Uma mesma pessoa consegue produzir, registrar e controlar? O concentrado que entrou, deveria ter produzido quanto material? Existe uma relação razoável nisto?
E ainda: Consigo reconstruir essa movimentação depois?
Ufa!
Só então faz sentido decidir onde instalar câmeras e a finalidade específica de cada uma, quais acessos precisam ser eletrônicos, onde aplicar dupla custódia, quais áreas precisam de alarmes, como controlar o cofre e onde a presença física da Segurança realmente agrega valor.
A câmera não protege um processo que você não entende
Aqui não vou entrar no tipo de câmera ou se uma Fisheye funciona melhor em uma situação ou outra. Isto será de acordo com sua avaliação de cada etapa do processo. Agora, imagine instalar uma câmera sobre uma fase de transferência do produto, por exemplo. A primeira pergunta não deveria ser “Onde consigo instalar a câmera?”, mas “Consigo montar o quebra cabeça em uma apuração?”.
Quem manipulou o material? De qual lote veio? Para onde foi? Houve mudança de recipiente ou custódia? Existe algum ponto entre uma etapa e outra em que perdemos a rastreabilidade?
E não. Não acaba aí. Você quer que as câmeras registrem tudo, mas será que tudo mesmo? Pergunta estranha, não é? Então... o sistema estará gravando as pessoas que operam a sala ou a senha daquele cofre, e isto pode ser uma grande vulnerabilidade, ainda mais se as imagens vazarem.
Isso muda toda a maneira de pensar o CFTV e Cybersecurity, e é aqui que entra a Análise de vídeo com IA (AI Analytics) para borrar imagens das faces, crachás, senha do cofre e outras mais que entender pertinentes a cada situação. Tudo vai do nível de análise de risco que você fez e de como discutiu as possibilidades com os stakeholders. Sim, porque com o andar da carruagem, novas restrições ou premissas limitadoras surgirão das áreas para serem tratadas ou riscos reduzidos. Lembre-se: Você não sabe tudo, nem tem que fazer sozinho. 😉
De fato, mais importante que simplesmente aumentar a quantidade de câmeras, é buscar continuidade de custódia visual nos pontos críticos, mantendo a integridade do processo.
Recebimento, preparação, secagem, transferência, forno, fundição, acabamento do lingote, pesagem, amostragem, armazenamento e cofre, precisam ser analisados como um fluxo. Isto não significa filmar cada centímetro.
E a hiperconectividade? IA e análise de vídeo podem ajudar a identificar movimentos ou comportamentos fora do padrão determinado durante a produção. Em vez de exigir que um operador acompanhe horas de processo continuamente, o sistema pode destacar eventos ou anomalias para análise. Tecnologia, porém, só funciona bem quando sabemos o que estamos procurando.
Quando o próprio CFTV cria uma vulnerabilidade
Considere uma câmera instalada diante do cofre. Queremos visualizar quem se aproximou, quem realizou a abertura, quando ocorreu e a movimentação relacionada à custódia. Mas existe algo que não queremos registrar: a senha utilizada para abrir o cofre.
É o mesmo princípio de golpes nos quais uma pequena câmera instalada pelos gatunos registra o PIN digitado pelo cliente em uma maquininha de crédito. E aqui cabe outro aprendizado para a Segurança: saber transferir conhecimento entre processos, que aparentemente são desconexos, como este, por exemplo. Mas isto falaremos em outro post. 😉
Se o CFTV permite visualizar a senha, criamos uma vulnerabilidade tentando resolver outra. Ângulo, campo de visão ou recursos de privacy masking podem solucionar o problema. O princípio é simples: registrar a operação, não o segredo que protege a operação. E nem precisamos falar de acessos às imagens, armazenamento, permissões de visualização e gravação, etc. Isto TI vai ter que certificar digitalmente pra você. E você terá que testar. E se for esperto, colocar a Auditoria no circuito.
Ah... e sabe aquelas imagens borradas que falamos acima? Então... é possível ter as imagens originais... você só precisa ter a senha do mascaramento. Complicado, não é? 💪😶
O que não virou lingote continua merecendo atenção
Aqui a Segurança pode agregar bastante valor, inclusive em uma operação já consolidada. A produção pode gerar materiais intermediários e subprodutos como lama, tortas de filtro, escórias, pós auríferos, soluções, aparas e outros materiais potencialmente recuperáveis. Isso quebra um paradigma comum da Segurança: tratar resíduos de produção como “material sem valor” ou sucata. Em uma operação de metais preciosos, não podemos nos dar a este "luxo".
Para se ter uma ideia, 100 gramas de ouro fino podem representar algo na ordem de R$ 70 mil, com aproximadamente o volume de um pequeno punhado de feijão.
É aí que as perguntas mudam, companheiro: Esse material ainda contém metal precioso recuperável? É pesado ou medido? Como é identificado e acondicionado? Quem possui acesso? Onde permanece? Quando retorna ao processo? Em que momento pode ser efetivamente liberado ou descartado?
Determinar teor, recuperação e parâmetros metalúrgicos é função das áreas técnicas, porém controlar sua custódia interessa à Segurança. Como diz meu pai: A vida é dura! 😬
A balança pode ser tão importante quanto o cofre
Considere um lingote pesado antes da retirada das amostras e novamente depois. Se houve retirada física de material, a diferença precisa ser compatível com aquilo que foi retirado e registrado. Então precisamos olhar também para a balança:
Está dentro do sistema de controle metrológico? Quem realizou a pesagem? O lingote possui identificação única? O peso é registrado automaticamente ou manualmente? Quem pode alterar o registro? Existe correspondência entre o material retirado e as amostras produzidas?
Questões que aparentemente são exclusivas de Produção ou Metalurgia se convertem claramente em Segurança.
Da balança chegamos ao Metal Accounting
Aqui está, na minha visão, um dos pontos mais importantes. O controle de metais preciosos não pode depender exclusivamente de CFTV, vigilância ou controle de acesso. Existe também a reconciliação metalúrgica, conceito muito mais sofisticado do que simplesmente “quanto entrou menos quanto saiu”.
O material muda de forma, composição e teor durante o processo. Existem inventários, materiais recuperáveis, amostras, produtos, subprodutos e perdas que precisam ser tecnicamente determinadas e reconciliadas. E Segurança e Produção possuem perspectivas diferentes em tudo isto, porém complementares.
Produção precisa explicar o comportamento do metal, e Segurança explicar a custódia.
Quando esses controles conversam, uma divergência deixa de ser simplesmente “está faltando material” e passa a ser “Em qual etapa surgiu a diferença e quem possuía custódia ou acesso naquele momento?”.
E tenham certeza: se isso não estiver mapeado e registrado, vocês lembrarão deste artigo quando precisarem apurar uma fraude.
Dupla custódia não é simplesmente colocar duas pessoas juntas
A dual custody, eventualmente associada ao two-person rule, é um controle importante. Mas duas pessoas presentes não significa necessariamente segregação de funções. Imagine duas pessoas transportando juntas determinado material, mas depois uma delas consegue sozinha pesar, registrar, manipular a amostra, acessar o armazenamento e controlar os registros. Houve dupla presença no deslocamento. Não necessariamente houve segregação. Por isso precisamos também avaliar a segregação de funções entre estas atividades.
Faça uma pergunta simples: "Uma única pessoa consegue executar uma sequência crítica e também controlar ou alterar as evidências dessa sequência?"
Se consegue, existe uma vulnerabilidade de processo que nenhuma câmera, isoladamente, resolverá.
A amostra saiu da Gold Room. O risco não.
Amostras podem seguir para o Laboratório, permanecer como referência ou receber outros destinos tecnicamente definidos. Quando deixam fisicamente a Gold Room, a cadeia de custódia precisa continuar. O laboratório, portanto, pode fazer parte do sistema de segurança da Gold Room, mesmo estando fisicamente fora dela. A cadeia de custódia acompanha o material, não as paredes da sala.
E finalmente, o cofre
Depois de acompanhar todo o processo, chegamos ao equipamento que normalmente seria nossa primeira preocupação. Ele continua extremamente importante. Só que agora nossas perguntas são diferentes:
Quem está autorizado a abrir? A credencial é individual ou compartilhada? Existe chave física? Quem mantém sua custódia? Em que local ele guarda a chave? Existe registro eletrônico de abertura? É possível identificar individualmente cada acesso? Existe dupla custódia? Quem deposita e quem retira o lingote? Como o estoque físico é reconciliado com aquilo que foi produzido e registrado?
Depois que acontece a ocorrência, saber que “a senha correta foi utilizada” possui valor investigativo muito menor do que saber qual usuário acessou, em qual horário e em qual movimentação. Portanto, um controle físico robusto com baixa rastreabilidade continua sendo um sistema vulnerável.
E talvez exista uma pergunta simples para testar a maturidade desse sistema: Se amanhã surgir uma divergência, conseguimos identificar em qual etapa ela ocorreu, quem tinha a custódia, quais registros foram gerados e quais evidências permitem reconstruir o processo?
Nem toda diferença significa que o ouro sumiu
É comum a área de Segurança seguir imediatamente o viés do furto 😂 Mas é evidente que uma diferença encontrada no controle do ouro não significa imediatamente perda, furto ou fraude. Uma boa prática é sempre tentar buscar outros ângulos de entendimento da situação.
Durante o processo existem pesagens, amostragens, análises e movimentações de material que naturalmente podem gerar pequenas variações. Por isso, a indústria trabalha a reconciliação, comparando o que deveria existir com aquilo que efetivamente foi apurado. O importante é conhecer qual é a variação normal e aceitável para aquela operação. A partir do momento em que uma diferença ultrapassa essa faixa ou não consegue ser explicada pelo processo, ela passa a exigir apuração.
Como referência, consideram-se perdas da ordem de 0,01% para o ouro. Parece insignificante, mas 0,01% de 100 kg representa 10 gramas de ouro (R$ 7k). Neste processo, qualquer peso, mesmo que aparentemente insignificante, será de valor agregado.
Pronto, agora é só cara/crachá, certo? Não é bem assim. Isso não significa que 0,01% seja uma tolerância universal. Cada operação precisa estabelecer seus próprios limites considerando seu processo, histórico e capacidade de medição.
Para a Segurança, o ponto fundamental é outro: quando surgir uma diferença, precisamos ser capazes de distinguir uma variação normal do processo de uma perda que não conseguimos explicar.
Abraço
Referências:
Metso – Elution and Goldroom Plant
World Gold Council – Gold Mining Process