
"Não há nada tão inútil quanto fazer com eficiência aquilo que nem deveria ser feito"
Peter Drucker
Assumir uma nova posição em Segurança traz uma tentação: chegar identificando falhas, propondo mudanças e mostrando resultado rapidamente. Calma lá, Combatente. 😁
Antes de mudar, é preciso entender. Os primeiros dias devem servir para conhecer o negócio, ouvir as pessoas, percorrer a operação e entender onde realmente estão os ativos, riscos e processos críticos. E, quando seu chefe diz: "Calma, não esperamos que você resolva ou saiba tudo logo de cara"... aproveite e faça a lição de casa.
E o que um Gestor de Segurança deveria fazer nos seus primeiros cinco dias na Empresa? De novo... vai com calma!
Você já se perguntou qual é o SEU objetivo? Então...
"Ter uma visão preliminar clara dos principais riscos, ativos e processos críticos, além das ações imediatas e de 30 e 90 dias."
Olha aí... a partir disso, você está preparando o terreno pro seu desempenho durante o período de experiência. E, se a grama estiver alta, melhor ainda. Porém, não se engane: vale a pena "pagar com sangue" nos primeiros meses.
Grama alta, sangue... que doideira! Explico:
Se a Segurança não estiver bem, é seu momento de acertar a casa. É uma enorme oportunidade de mostrar resultado e Governança. E não precisa ser gênio. É apenas fazer o básico, sem reinventar a roda.
Só que, pra isso, terá que ralar. Visitar posto por posto, ler procedimento por procedimento, contratos, realizar ronda com a Equipe às 3h da manhã... e assim vai. Em pouco tempo, você começará a enxergar conexões entre processos que, muitas vezes, cada área vê apenas pela própria perspectiva. E nem vou falar do respeito que a Equipe ou os demais empregados da Empresa terão por você. Porque, é claro, ninguém fez essas coisas. Só você mesmo ou quem lê meus artigos e aplica minhas sugestões.
O resultado você perceberá rapidamente. Quando for questionado pela Diretoria ou por outros Gestores, a resposta sairá naturalmente, pois você viveu aquilo. É aí que acontece a mágica. E passei por isso várias vezes: em determinado momento da conversa, quem está questionando acaba escorregando e você, sem pretensão ou soberba, demonstra que domina o assunto. Mas cuidado. Lembre-se de que você é o novato e, em certas situações, terá que se fazer de desentendido.
Para a semana inicial, basicamente, faça perguntas de entendimento, não de fiscalização. Nada de discurso de mudança.
Base: "Quero entender como vocês trabalham e conhecer a operação."
De qualquer forma, vamos lá pra nossa tão esperada sequência:
Dia 1: Sua missão é entender
- Entender o negócio. E isso não será fácil. Pelo menos nunca é para mim. Por isso, busco falar com as mais diversas fontes. O famoso dois ouvidos e uma boca. Não é o momento de você brilhar, falar de você ou da empresa anterior. Sei que é difícil. Evite. Controle-se. Absorva o máximo que puder e, se possível, tente fazer perguntas que realmente valham a pena. Construa confiança;
- Tenha uma conversa estruturada com seu chefe. Pergunte: por que ele te contratou? O que ele espera que você entregue? O que está complicando a vida dele? O que não deve ser feito sem alinhamento? Basicamente, coloque seus objetivos nos trilhos dele.Dia 2: Buscar as áreas-chave
Aqui, seu objetivo é percorrer o processo de ponta a ponta. Seguir o fluxo de valor, com olhar de Segurança. Para isso, é claro que você tem que conversar com os Gerentes da Empresa. Nem sempre será possível seguir a sequência das reuniões que você desenhou na cabeça, porém tenha em mente algumas prioridades:
- Responsável pela Operação, Planta ou Processamento;- Segurança do Trabalho;- Logística e Suprimentos;- RH;- Administração/Infra.Bônus: fale com os técnicos mais experientes de cada uma dessas áreas. Eles têm prazer em ajudar. Peça indicação a cada Gestor; eles adorarão se livrar de você. 😂
E não se esqueça de entender: o que entra? O que sai? Onde está o ativo de maior valor? Onde há mais exposição? E o que pode parar o negócio?
Só que veja bem... nada de questionário. Uma small talk no começo pra quebrar o gelo (5 min) e cada pergunta encaixada durante a conversa. Em todo caso, provavelmente tudo isso será fornecido espontaneamente pelo próprio Gestor.
No final do dia, você terá que responder à questão:
"Em que ponto o material passa a ter valor que justifica um nível de proteção maior?"
Dia 3: Perguntas-chave às Lideranças
Agora você já conhece um pouco o fluxo. É hora de entender como as Lideranças enxergam a Segurança. E aqui sugiro que você tenha algumas perguntas padrão, que deverão ser feitas aos Gestores.
Dica: trabalhe antes sua inteligência emocional, resiliência e poker face, porque pode vir pedrada:
- O que a Segurança faz bem hoje?- Onde mais te atrapalha/preocupa?- Quais são os três pontos mais críticos da operação hoje?- Se eu pudesse resolver só uma coisa pra sua área nos próximos 90 dias, qual seria?Interessante... você consegue responder às mesmas questões sobre a própria Segurança? Então... reflita antes de sair por aí atirando.
Tudo isso parece complicado, e é. Porque terá o RH atrás de você querendo documentação, TI para entregar equipamento, etc.
O que pode te ajudar, e muito, é fazer esse tour pela Empresa com alguém que conheça bem o processo. Aí você se dá bem. Mas isso é raro, já que esse tipo de profissional nem sempre tem tempo à sua disposição.
Dia 4: Sua Equipe
Só conhecer a Equipe no 4º dia???
Sim. A não ser que você seja pego no fogo cruzado e caia de boca na missão, o que geralmente acontece. Aí, você terá que encaixar tudo isso lá pra cima. Mas tenha ciência de que não terá o mesmo efeito. Quando você já chega conhecendo o processo, e tão rápido, o impacto é enorme.
Para o time, divida em 3 temas:
- Pessoas: efetivo, escalas, contratos, qualificações. (Sim, CV de cada integrante. Sem preguiça);
- Procedimentos: quais existem, como funcionam, como estão escritos e o que realmente se aplica;
- Sistemas: tecnologias existentes, centro de controle, integrações, limitações etc.Dia 5: Olhar pra fora
Comunidades, logística, rotas, capacidade de resposta. E aqui é onde você começa a preparar o médio/longo prazo, Gestão de Crises e afins:
- Autoridades e suporte disponível. Qual é o tempo real de resposta?- Qual é a capacidade de apoio?- Quais são as principais ameaças externas?- Qual é o cenário externo que, se acontecer amanhã, pode parar a operação por 24, 48 ou 72 horas?- Se algo acontecer nesse primeiro mês, quem responde? Em quanto tempo? Tem plano de contingência básico?... e você achou que Relações Institucionais eram só pró-forma ou burocracia?! 😁
Ao final de cada dia: Consolidar
Anote. E muito.
E, se forem pontos demais, concentre-se no que saltar aos olhos ou for prioridade, principalmente para seu Gestor ou para a Alta Gestão:
- Faça um mapa preliminar de riscos. Priorize ações imediatas, de 30 dias e de 90 dias;- Estabeleça dois ou três indicadores básicos, provisórios, para começar a medir.No final dos cinco dias, você deverá ter uma primeira versão alinhada do plano 0–90 dias e uma mensagem clara à liderança:
"Entendi a operação, percorri o fluxo, avaliei controles de forma preliminar e identifiquei estes riscos prioritários. Aqui estão as ações imediatas e o plano de 30 e 90 dias."
Alerta! Alinhe tudo isso com seu Gestor antes de executar e apresente um plano mestre que atingirá os principais pontos levantados nesses cinco dias.
Próximos passos...
Em 3 meses você deve entregar:
- Diagnóstico consolidado;- Vulnerabilidades críticas corrigidas;- Procedimentos implementados;- Equipe treinada;- Indicadores estabelecidos.E em 6 meses:
- Elevar a maturidade;- Estabelecer uma governança clara;- Integrar a Segurança com as demais áreas;- Ter planos testados.E não se esqueça: esses cinco dias serão incríveis, mas você terá que acertar o curso de várias coisas durante o desenvolvimento das ações. PDCA! 😉
Abraço
Referências:
ASIS – Enterprise Security Risk Management Guideline
ISO 31000:2018 – Risk Management
ASIS – Physical Asset Protection Standard