Do Projeto à Operação: E a Segurança?

A única constante é a mudança

Heráclito

Projeto chegando ao fim e a Operação vai começar. A primeira reação da Segurança pode ser manter estruturas, controles, contratos e recursos que funcionaram até aqui. Mas será que a Segurança que protegeu o Projeto é a mesma que o negócio precisará amanhã? O Budget será o mesmo? O CAPEX? As condições para obtenção e aplicação dos recursos terão a mesma dinâmica? Perguntas complicadas, certo? E como adequar tudo isso à realidade de que baixo orçamento não significa baixa Segurança?

Projeto e Operação possuem riscos, ativos, pessoas e prioridades diferentes. A Segurança precisa proteger o presente sem construir uma estrutura que já nasça inadequada para o futuro. 

Dica: Para novas estruturas, processos ou equipamentos, pense no médio e longo prazo. Incrementar algo que não suporta o futuro é bem mais complicado. Imagine a Hiperconectividade, ou aquele Centro de Controle projetado para 100 câmeras, mas que, em dois anos, precisará suportar 500, ou até 1.000 em cinco anos. Ou aquele controle de acesso, etc. É nesse momento que uma pergunta se torna fundamental:

O que termina, o que muda e o que permanece?

Projeto acabando × Operação começando

Não se engane. São ambientes diferentes. Isto me lembra quando ocorreu a troca de comando no 2º BPE, lá em 93/94. Um dos Oficiais disse: "Moscone, vai mudar tudo!". Não acreditei. Como pode um Quartel, todo padronizado, sofrer mudanças significativas? Pois é, mudou. E muito. Horários, rotinas, metodologia, metas, postura, prioridades, etc. Em UMA SEMANA eu estava em outro Exército, e bem melhor 😁

No final do Projeto, você pode ter muitos terceiros, obras, materiais, equipamentos, acessos temporários, mudanças constantes e elevada movimentação. Furto, controle de acesso, conflitos e movimentação de materiais podem ocupar boa parte da atenção da Segurança.

Quando começa a Operação, parte desse volume diminui, mas outros riscos ganham importância: processo produtivo, ativos críticos permanentes, produto acabado, logística, continuidade, informação, fraude, ameaça interna, etc. Portanto, seria um erro simplesmente transformar toda a Segurança do Projeto em Segurança da Operação. Só que, antes de atravessar essa ponte, precisamos fazer algumas perguntas:

Qual é o risco desta transição e qual é a linha vermelha que não pode ser cruzada?

O que pode entrar em Operação mesmo sem estar 100% pronto e o que hoje é provisório, mas deverá ser definitivo?

Onde estão as passagens de responsabilidade entre Projeto e Operação?

Se eu pudesse resolver apenas uma coisa para cada área nos próximos 90 dias, qual seria?

Qual cenário externo poderia parar a Operação por 24, 48 ou 72 horas?

Se alguma coisa acontecer nesse primeiro mês, quem responde, em quanto tempo e existe ao menos um plano básico de contingência?

Essas respostas começam a mostrar qual Segurança precisa terminar junto com o Projeto e qual precisa nascer junto à Operação.

A ponte

De um lado está a Segurança que o Projeto precisa hoje. Do outro, a Segurança que a Operação precisará amanhã. E as duas não são necessariamente iguais.

Os ativos começam a ser comissionados, a população muda, alguns acessos desaparecem e determinadas estruturas temporárias deixam de fazer sentido. O próprio perfil de risco altera, e isso também afeta a maneira de pensar os investimentos.

Do outro lado da ponte está a Operação. Agora falamos de produção, ativos críticos permanentes, produto, processos essenciais e continuidade do negócio. O efetivo tende a ser mais estável, os procedimentos precisam refletir a nova realidade e a tecnologia começa a fazer parte de uma arquitetura de Segurança mais definitiva.

E olha, tem cada pergunta interessante. Por exemplo: “Isto continuará existindo?”

E serve para muita coisa: vias no site, procedimentos, equipamentos, etc. E, se for continuar, talvez seja melhor investir agora em algo que também possa ser aproveitado pela futura Operação.

Eu resumiria em três pontos:

No Projeto: O que preciso proteger agora?
Na transição: O que vai mudar e o que continuará existindo?
Na Operação: O que pode parar o negócio?

Poucos recursos: priorizar capacidade, não quantidade

Aqui entramos no orçamento. Quem já viveu o Projeto e a Operação entende as mudanças radicais nos investimentos e centro de custo. Para aqueles que não conhecem, antes de perguntar “quantos vigilantes?”, “quantas câmeras?” ou “quanto temos de orçamento?”, você presisará entender:

Quais são os cinco cenários capazes de causar maior impacto ao negócio agora?

Quais deles continuarão existindo na Operação?

A partir daí, separar:

Risco somente do Projeto: Controle temporário
Risco da transição: Controle flexível
Risco permanente da Operação: Investimento pensando no futuro

Imagine um acesso temporário de obra que desaparecerá daqui a seis meses. Talvez não faça sentido instalar ali um sistema sofisticado. Mas, se aquele mesmo ponto será o acesso logístico definitivo da planta pelos próximos 15 anos, muda tudo.

O CAPEX de hoje na arquitetura de Segurança de amanhã

Aqui é onde a Segurança gera valor. Sendo eficaz, eficiente e sustentável! Porém é sempre bom relembrar os conceitos:

Eficácia: O controle reduz o risco?

Eficiência: Consegue fazer isso utilizando adequadamente dinheiro, pessoas, tecnologia e tempo?

Por exemplo, um posto com quatro vigilantes pode ser eficaz, porém talvez não seja eficiente. Uma câmera sem capacidade de detecção e resposta pode ser barata, mas talvez não seja eficaz.

É sustentável? Olha aí outra questão da Segurança moderna. Em ambientes críticos, no meu entendimento, isso é fundamental. Não adianta implementar uma melhoria frágil, que a empresa não consiga manter, repor ou sustentar por um período razoável. Um excelente controle que deixa de funcionar por falta de manutenção pode rapidamente deixar de ser um controle e se tornar uma enorme vulnerabilidade. E convenhamos, quase nunca é possível manter tudo isto devido às necessidades de sobrevivência financeira do negócio.

Receita de bolo: O controle funciona hoje, cabe no orçamento e continuará fazendo sentido quando a Operação estiver estabilizada? Se responder a essas três perguntas-chave, tem futuro 😂

Nem todo risco precisa ser eliminado

A Segurança, culturalmente, tem a mania de tentar resolver tudo ou pensar que pode evitar todos os riscos. Com recursos limitados, a Segurança não consegue, e nem deveria tentar, eliminar todos eles. Uma boa prática é identificar 30 vulnerabilidades e categorizá-las:

05 são críticas: Tratar agora
10 são importantes: Plano de transição
10 podem ser monitoradas: Aceitar temporariamente
05 desaparecerão com o fim do Projeto: Talvez não faça sentido investir

Bem mais executivo, certo? Apesar de você achar que ter uma lista de 30 problemas e 30 pedidos de investimento é sinônimo de um Gestor que controla o processo, levar essa lista ao Diretor não é interessante. E pior, pode parecer que você não entende o negócio ou não sabe estabelecer prioridades. A conversa deve passar a ser: “Estes cinco precisam de recursos agora. Estes conseguimos controlar operacionalmente. Estes podemos aceitar temporariamente. E nestes não recomendo investir porque desaparecerão com o Projeto”. Isso é Gestão de Risco, e não apenas Segurança Patrimonial.

Segurança não pode ser adversária do negócio

Na transição, é um risco a Segurança ficar tão preocupada em controlar que começa a criar dificuldade para produzir. Fique atento. Fila de caminhões, demora no acesso, burocracia para prestadores, autorizações excessivas, inspeções duplicadas... Quanto risco estou reduzindo e quanto atrito estou criando ao negócio?

Se consigo reduzir o mesmo risco com menos atrito, encontrei valor. Isso pode significar integrar cadastros, antecipar autorização de fornecedores, automatizar acessos, definir por risco quem realmente precisa de inspeção adicional ou concentrar pessoas justamente onde julgamento e capacidade de resposta agregam mais valor.

Antes de investir, faça a lição de casa

Para aprovar pessoas, processos ou equipamentos, eu faria cinco perguntas:

1. Qual risco estou tratando?
2. Qual consequência estou evitando?
3. Preciso disso agora?
4. Isso continuará sendo necessário na Operação?
5. Existe uma solução que resolva o presente e possa ser aproveitada no futuro?

E vou mais longe, pense nisto quando for defender seu orçamento. Por exemplo: Transformar CAPEX de Segurança em investimento com ciclo de vida e finalidade, e não em um amontoado de equipamentos (Drone, câmera, cadeado eletrônico, etc.).

Um olho no peixe, outro no gato

É ter atenção ao risco de hoje e à Operação de amanhã. No fim do Projeto, talvez uma das piores decisões seja não investir porque “o Projeto está acabando”. Mas outra decisão igualmente perigosa pode ser continuar investindo como se o Projeto nunca fosse acabar. O trabalho da Segurança está justamente no meio.

Gerar valor com poucos recursos não é fazer Segurança barata. É colocar o recurso certo, no risco certo, no momento certo, sem perder de vista o negócio que existirá amanhã.

Abraço

Referências:

ISO 31000:2018 – Risk Management — Guidelines

ISO – Risk Management: The Basics

CISA – Physical Security Performance Goals

NIST SP 800-37 Rev. 2




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