"O que você vê é tudo o que há"
Daniel Kahneman
A frase de Kahneman é legal, mas não se engane: a vida real é bem mais complicada.
Quem nunca ouviu que uma pessoa de braços cruzados está “fechada” para a conversa? Ou que alguém que evita contato visual provavelmente está escondendo alguma coisa?
Durante uma conversa ou entrevista, percebeu que a pessoa começou a mexer as pernas, levou a mão ao rosto, mudou de posição na cadeira ou desviou o olhar, justamente quando você fez aquela pergunta mais complicada. "Viu? mentindo!"
Calma aí, Jack Bauer. Braços cruzados podem significar resistência, mas também significar frio. Tem apurador que deixa a sala gelada pra gerar desconforto, e aí não quer que o entrevistado cruze os braços?! 😂 Assistir filmes não siginifica que você vai colocar tudo aquilo em prática, tenha bom senso.
Desviar o olhar pode acontecer diante de uma mentira, mas também por vergonha, ansiedade, medo, respeito, esforço para lembrar de alguma coisa ou até por características culturais. O Malawiano, por exemplo, sorri em situações estressantes ou de conflitos. Eles entendem (E realmente funciona muito bem) que isto facilita a resolução do conflito. Por isto o Malawi é chamado o coração da África. O complicado é um Europeu ou um Latino ententender isto no momento do calor da apuração. Já o Moçambicano tem uma postura diferente sob pressão, e assim vai. Até a colonização dos países, localização e cultura devem ser levadas em conta.
Séries e filmes popularizaram a ideia de que podemos “ler” uma pessoa observando alguns sinais. Mais ou menso o que o cinema fez com os Americanos, onde todos parecem possuir as habilidades do Rambo, FBI, SEALs, etc. 😂
Em Lie to Me, uma microexpressão parece suficiente para revelar aquilo que alguém tenta esconder. Em The Mentalist, os pequenos comportamentos ou informações do ambiente possibilitam que o carismático protagonista praticamente entre na cabeça das pessoas. E quem gosta de Mindhunter certamente já prestou atenção nos silêncios, nas mudanças de postura e na maneira como os entrevistadores constroem a conversa.
Na Segurança, principalmente para quem trabalha com apurações e entrevistas, observar o comportamento pode trazer informações importantes. O problema começa quando transformamos uma observação em diagnóstico. Não existe um gesto universal que, sozinho, prove uma mentira. O comportamento precisa de contexto, comparação e investigação. E talvez essa seja a parte mais perigosa: quando acreditamos demais na nossa capacidade, podemos começar a procurar no comportamento da pessoa apenas aquilo que confirma o que já decidimos acreditar.
Uso a Linguagem corporal como ferramenta, e das boas, mas não como um detector de mentiras. De fato, prefico perguntas mais inteligentes e estratégicas, conectar os pontos, desenvolver a conversa, e aplicar o tempo certo para tudo isto durante uma entrevista. Montar o quebra-cabeça. Afinal, como diz o Dr. House: "Todo mundo mente". A linguagem corporal entra para ajudar, mas não é a 1ª linha de ação.
Dica: Não se deixe envolver totalmente pela licença poética da película ou emoção do enredo. Aproveite, mas mantenha o foco naquilo que realmente pode funcionar na vida real e dentro das suas habilidades que poderão ser treinadas.
De qualquer forma, aprender se divertindo é sempre interessante. Então aqui vão algumas escolhas do cinema mundial:
Lie to Me (2009–2011): Legal. Comecei, mas não acabei. Tenho que retomar.
The Mentalist (2008–2015): Excelente! Tanto pelo entretenimento quanto pelos insights que podemos tirar dela. Passa dicas de observações realmente boas. Só que um poquinho em a cada episódio.
Mindhunter (2017–2019): Bom! Só não é excelente porque a 2ª temporada foi fraca. Real e impressionante. Época onde este ramo da ciência ainda engatinhava no FBI.
House M.D. (2004–2012): Excelente. Já vimos completa 2 vezes.
24h (2001-2010): Excelente. Já assisti três vezes (192 episódios, mais os puxadinhos que vieram depois)! E nela o Jack Bauer faz de tudo!
The Silence of the Lambs (1991): Excelente! Se você não assistiu, é um dos poucos no mundo 😂
Basic Instinct (1992): Excelente. O interrogatório com a Sharon Stone... impossível você não ter visto ao menos a cena da cruzada de pernas! 😆
A Few Good Men (1992): Excelente! Mais conhecido como "Questão de Honra" no Brasil. E o elenco? Show! E aquele truque durante o julgamento, para conseguir a confissão, já fiz parecido em uma entrevista... e funcionou!
The Usual Suspects (1995): Excelente! E com final surpreendente.
Under Suspicion (2000): Excelente! O filme evolui de uma conversa, para entrevista... e por fim interrogatório. Pura aula!
12 Angry Men (1957): Bom! Para observar comportamento, persuasão, pressão do grupo, vieses e mudança de opinião.
Primal Fear (1996): Legal. Minha avaliação IMDb foi 7, mas confesso que não lembro da história.
Onde assistir:
Netflix
- Mindhunter (2017–2019)
- Basic Instinct (1992)
Amazon Prime Video
- The Silence of the Lambs (1991)
- House M.D. (2004–2012)
HBO Max
- A Few Good Men (1992)
- House M.D. (2004–2012)
MGM+
- 12 Angry Men (1957)
- House M.D. (2004–2012)
- 24 (2001–2010)
- House M.D. (2004–2012)
Aluguel/compra digital
- The Silence of the Lambs (1991) — Apple TV / Amazon
- A Few Good Men (1992) — Apple TV / Amazon
- 12 Angry Men (1957) — Apple TV / Amazon
Indisponíveis atualmente no Brasil
- Under Suspicion (2000)
Disponibilidade a verificar
- The Usual Suspects (1995): As fontes consultadas apresentam informações divergentes sobre a disponibilidade atual no Brasil.
- Lie to Me (2009–2011): Não está disponível no streaming do Brasil.
Abraço
Labels: 5 minutos de Segurança Cinema
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