A Segurança é adversário para as demais áreas?

“Reunir-se é um começo; permanecer unidos é progresso; trabalhar juntos é sucesso.”

Henry Ford

Quando cheguei a uma empresa, algo me chamou a atenção logo nos primeiros dias. O clima entre a Segurança e as demais áreas era extremamente de confronto. Era quase um “nós contra eles”. Segurança de um lado, Operações, RH, Manutenção, Suprimentos e outras áreas do outro.

E tinha algo ainda mais estranho: essa relação chegava até dentro da própria estrutura da Segurança. A equipe própria e o fornecedor de Segurança também pareciam estar em lados diferentes. E não era um problema daquela gestão especificamente. Parecia cultural.

Bom... não sou um gênio da percepção e, na verdade, nem daqueles que chegam com cinquenta ideias novas na cabeça. Mas aquilo parecia simplesmente errado. Afinal, como uma área criada para proteger a empresa pode enxergar a própria empresa como adversária? 

E “haverá sinais” de tudo isto 😂 Quando começamos a ouvir “Lá vem a Segurança dificultar” ou “A Segurança quer mandar em tudo”, e a nossa resposta passa a ser “Operações só quer produzir e não está nem aí para a Segurança”, “Suprimentos só pensa em preço”, ou até “O fornecedor só quer faturar”... é porque o caldo degringolou.

É quando ninguém mais discute o problema e passa a discutir quem está certo. E quando começamos a medir o sucesso pelo número de vezes que conseguimos dizer “não”, algo está muito errado. Não porque a Segurança não deva dizer não. Às vezes precisa, e categoricamente. Mas o objetivo não é vencer a discussão. É controlar o risco e permitir que o negócio funcione. Parceiros, lembra?

O fornecedor é um exemplo interessante

Se o vigilante, supervisor ou gestor terceirizado é tratado como “eles”, temos uma contradição. Contratamos uma empresa para fazer parte do nosso sistema de proteção e depois passamos a tratá-la como se estivesse do outro lado do muro. 😶 Claro que fornecedor precisa de contrato, fiscalização, SLA, KPIs, cobrança e responsabilização. Parceria não significa ausência de cobrança. Porém, uma prática que tenho é considerar que o fornecedor de Segurança é a Segurança! É a mesma ideia que trouxe do Exército, do tempo em que estive por lá. Se um soldado faz algo de errado fora do quartel, no meio civil, não será o nome dele que chamará a atenção, que será estampado naspáginas dos jornais, mas o da Instituição como um todo! Como por exemplo "Soldado do EB se envolve em...". E da mesma forma, a Segurança será diretamente responsabilizada pela falha.

De alguma forma lembrei, que lá nos anos 80, já se dizia que “o maior patrimônio do homem é o próprio homem”. E, como a percepção inicial era ser um problema cultural, começamos com pequenas atitudes: conversar com as áreas antes de simplesmente impor; entender por que determinado controle atrapalhava a Operação; explicar o risco por trás das exigências da Segurança; incluir o fornecedor nas discussões; reconhecer quando outra área tinha razão; fazer o vigilante entender que ele protegia a empresa, e não “a Segurança”; levar problemas com alternativas, e não apenas com proibições, e por aí vai.

Basicamente fizemos a lição de casa, e fomos além. Quais produtos a Segurança entregava às áreas? De que maneira ela poderia ser facilitadora e não apenas um “porteiro”? Como ela apoiava o negócio? É possível fazer tudo isso sem transformar a Segurança em uma “área boazinha” e seguir firme, sem ser adversária?

Segurança gerando de valor

Uma das formas mais efetivas de atingir este objetivo é a Segurança conhecer os riscos do negócio e alinhar seus processos. Nós conhecemos as ameaças, vulnerabilidades e controles... ou deveríamos conhecer. Só que não depende apenas de nós. As áreas são fundamentais para completar o quadro:

Operações conhece o processo

RH conhece as pessoas

TI conhece os sistemas

Infraestrutura conhece as instalações

Suprimentos conhece os fornecedores e contratos

Financeiro conhece os impactos

Safety conhece os riscos ocupacionais

Jurídico ajuda a blindar a empresa

A Segurança isolada pode até controlar acessos, mas sem esse apoio, dificilmente conseguirá realmente entender o risco do negócio.

Somos parceiros?

Os empregados enxergam a Segurança como adversária? Vão nos procurar quando perceberem alguma coisa estranha? Vão alertar sobre uma vulnerabilidade? Buscar orientação antes de uma viagem? Relatar um comportamento suspeito?

Será que em geral o pensamento é: Melhor não envolver a Segurança nisso, os caras podem se virar contra nós”. Percebam que as perguntas são tão, ou mais, importantes que as próprias respostas.

E o “nós contra eles” deixa de ser apenas um problema de clima organizacional. Vira vulnerabilidade de Segurança. E tenha certeza: isso não aconteceu da noite para o dia. Cultura não muda porque alguém publica um procedimento ou faz uma apresentação bonita em PowerPoint.

E naquela empresa que mencionei no início, certamente não conseguimos mudar tudo. Mas mudamos o que foi possível enquanto estivemos por lá. Aos poucos, algumas barreiras diminuíram. Conversas começaram a substituir confrontos. O fornecedor passou a ser visto mais como parte da solução. E a Segurança começou a ocupar um espaço diferente. Mais estratégico. E não deixou de cobrar nem de controlar. Apenas passou a fazer isso sem transformar as outras áreas em adversárias.

Segurança Moderna

A Segurança evoluiu. Hoje falamos muito mais em negócio, parceria, integração, inteligência, riscos, clientes internos e estratégia. Ainda bem.

Mas será que evoluímos apenas no discurso ou também na forma como nos relacionamos? Porque ser parceiro do negócio não significa concordar com tudo. Atender nosso cliente interno não é fazer tudo o que ele quer. Da mesma forma, integrar e desenvolver o fornecedor significa torná-lo parte efetiva do sistema de proteção, com responsabilidades claras e o mesmo compromisso com os resultados.

Assim, a Segurança continuará dizendo “não” quando for necessário. Seguirá cobrando, investigando, controlando acessos, apontando vulnerabilidades e, às vezes, trazendo notícias que ninguém gostaria de ouvir. Faz parte da nossa função. Mas existe uma diferença enorme entre discordar de alguém e transformá-lo em adversário.

O que fica é a pergunta

“Quando a Segurança entra numa reunião, as outras áreas enxergam alguém que veio ajudar a controlar um risco ou alguém que veio criar um problema?” 😶

Referências:

ASIS — Enterprise Security Risk Management (ESRM)

ASIS — A Brief Guide to ESRM Implementation

ASIS — Next Generation Enterprise Security Risk Management

NIST — Risk Management

NIST IR 8286D — Business Impact Analysis and Risk Prioritization

Abraço



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