Soldado anônimo

Sabe estes porquinhos porta-moeda de plástico e que os caras vendem no Centro de São Paulo, então, resolvi presentear um amigo com um destes só pra sacanear o Palmeiras dele. Passou algum tempo e o cara apareceu com outro porquinho que na verdade parecia um leitão de tão grande que era o "cofrinho". Ele contou que o porquinho anterior lhe rendeu uma bagatela de R$ 139,00 em moedas e que isto o motivou para guardar mais dinheiro com este tipo de economia.

- Caramba! Com este aí vc chega nuns 2 pau facinho! (Tradução: R$ 2 mil).

Isto lembrou uma história de quartel (Aquele na Abílio Soares) ocorrida em 1994. Não lembro o nome do soldado e se lembrasse não colocaria neste post, contudo vamos lá...

O subtenente reformado Novaes, já falecido, possuía uma cantina dentro do Batalhão e próximo a uma das janelas do local ele mantinha um porta moedas com uma quantidade razoável de dinheiro. Em determinada noite alguns soldados resolveram furtar o tal porta moedas e tudo acabou vindo à tona no dia seguinte.

O 2º BPE contava com o PIC, Pelotão de investigações Criminais, e por se tratar de uma alteração GRAVE, o assunto foi minunciosamente investigado e todos os envolvidos posteriormente identificados.

Lembro que um dos pais dos rapazes veio ao quartel buscar informações do porquê seu filho permaneceria 30 dias detido. Isto parecia estranho a ele que desconfiou das desencontradas explicações fornecidas pelo seu descendente. Naquela época eu era Comandante de 1ª Cia de Polícia do Exército e o recebi em minha sala para dar as devidas explicações.

Era um senhor simples, trabalhava de pedreiro, e que se ausentara do trabalho rapidamente para poder entender a situação. Expliquei tudo e solicitei a presença do soldado à sala. Neste meio tempo o senhor questionou-me como, eu ainda tão jovem, havia conseguido me tornar Tenente do Exército. – Vc tem quase a mesma idade do meu filho! – Comentou impressionado.

Já na presença dos dois, aquele simpático senhor iniciou seu discurso... Falou sobre a vergonha que estava passando e sobre algumas coisas que aqueles que são pais jamais gostariam de passar... O jeito com que falava lembrava-me meu pai e pude me colocar no lugar daquele filho que havia decepcionado seu velho. Foi emocionante ver pai e filho em prantos e nem mesmo eu pude agüentar a situação e, antes de começar a chorar, retirei-me da sala para que eles pudessem conversar mais tranquilamente.

A situação dos envolvidos na ocorrência não era fácil, o Comandante do Batalhão ainda aguardava minha opinião sobre expulsar os soldados e, diante daquele homem, fui obrigado a explicar o que ainda poderia acontecer ao seu filho.

 Vejam, não obtive reação diferente do que esperava daquele pai. Em nenhum momento ele tentou me persuadir, pelo contrário...

- “Meu filho deve responder por suas atitudes da forma que vcs julgarem correto!”.

E assim foi. Pelo menos na minha visão do caso. Responsabilizei-me pelos soldados envolvidos e informei ao Coronel que acompanharia de perto o desempenho de todos até o final do Serviço Militar Obrigatório. Qualquer deslize resultaria no desligamento a bem da disciplina.

Bem, eles conseguiram reverter a situação e se mostraram bons soldados durante o restante do ano, conseguindo completar seu período dentro das fileiras do Exército.

Taças para sorvete - 1994/2010



Durante a formatura militar daquela turma, uma surpresa, fui presenteado pelos pais do soldado. Foi algo muito simples e que representava a gratidão daquela família que passou pela minha vida. Tenho certeza que o valor foi muito pequeno, porém para aquele pai foi o melhor que pode oferecer. Ao lado, segue a foto do presente, ainda em uso.

Abraço

Compartilhe:

Helps!

Vô João
Eu adorava meu avô e com certeza no futuro vou dedicar um post só pra ele, por enquanto adianto que ele gostava de assistir o "Aqui Agora" só para ouvir o cara de gravatinha borboleta falar... "Here now!"

- Este apresentador fala bonito! - Dizia ele.

Tenho certeza que ele gostaria demais de ouvir o Carro Velho, locutor da 104...

- Não entendi nada... mas o radialista falou bonito! - Diria ele.


Abraço

Compartilhe:

O Tombo

Resolvi acrescentar às minhas atividades físicas a modalidade Bike. Eu servia no QG (Quartel General) na Rua Sgt Mário Kozel Filho, em frente a Assembléia Legislativa no Bairro do Ibirapuera - SP. Acontece que nesta época eu ainda morava com a minha mãe na Vila Maria, ou seja, a aproximadamente 16 quilometros da Caserna. Veja bem, eu praticava natação 2 vezes por semana, ginástica preparatória e futebol nos outros três dias úteis e ainda queria percorrer 64 quilômetros (2 dias) de bicicleta na mesma semana. Vamos lá... 25 anos, ex-PE, 1º Tenente, esperto... adivinhe no que deu.

Para retornar do quartel era necessário subir a Avenida 23 de maio, que é uma ladeira e tanto, mas como ainda se iniciava o percurso dava pra levar na boa. Quando terminava a subida vinha a recompensa, uma descida animal até o vale do Anhamgabaú.

Eu tinha velocímetro na minha magrela e constantemente chegava aos 60 Km/h naquele trecho. Sempre gostei de andar de bicicleta e confesso que tinha certa habilidade neste esporte, ao ponto de soltar as mãos na descida da 23 para tomar "aquela brisa", né? Pelo menos era o que eu achava até aquele fatídico final de tarde de terça-feira.

Mais ou menos na metade da ribanceira, ou seja, embalo total, eu resolvi relaxar e como era de costume soltei as mãos do guidão e passei a apreciar a sensação de liberdade, só que a pista não estava tão boa quanto eu esperava.



Sabe quando a prefeitura remenda uma falha no asfalto, tipo um trecho que está com buracos? Então, o lugar era tão maledento que o remendo que fizeram tb estava muito ruim. Graças a Deus eu consegui perceber a falha no chão... mas entre eu perceber e conseguir pegar novamente o guidão foram duas coisas totalmente diferentes.



Eu imagino, e vcs tb, a cara de desespero que fiquei quando meu tempo de reação não foi suficiente para agarrar a bike novamente. Numa fração de segundo o pneu virou totalmente e eu sai voando igual ao Superman, literalmente. O capote deve ter durado uns 2 ou três segundos, mas para mim foram por volta de 22, 23 minutos. Quando bati no chão fui ralando no meio fio... as costas, o joelho, a mão, os dentes, o olho, a cara, sim, a cara, pq somente um animal faria uma coisa destas na 23 de maio. Não salvei nenhuma parte do meu corpo. Até minha alma foi prejudicada naquele incidente. Sinto até calafrios enquanto escrevo este post. Quando parei de brincar de "ralador de Moscone", levantei-me e, com dificuldade, sentei naquelas muretas que existem ao longo da avenida.



- Ai, ai, caralho, ai, me fudi, ai, me fudi, cara...lhoooo...



Como disse em alguns posts atrás, eu andava armado, só que de bike não dava pra deixar a ferramenta no tornozelo, então eu levava o Tackleberry, nome que dava ao meu revólver, dentro da mochila junto com minhas roupas de muda. Devagar, consegui tirar a mochila e colocar ao meu lado enquanto tentava me recuperar do tombo.



O acidente foi feio e alguns "cachorros loucos" (Motoboys) pararam pra prestar socorro. Podem pensar o que quiser, mas minha preocupação naquele momento era que um daqueles caras pegasse minha mochila e desse fuga com minha arma. Ai sim eu estaria mais arrebentado do que com o capote.



- Cê tá bem brow?



- Tô, Tô... (Tô o caralho... tô todo fudido! Pensei) - Só preciso deitar um pouco aki para esperar passar a dor.



E de sentado passei a deitado na mureta. Após alguns minutos os caras perceberam que eu não melhorava e começaram a me pressionar pra irmos ao hospital. Tentei sentar novamente... não deu.



- Meu Deus... preciso de Hospital! Me leva pro HG... me leva pro HG!



Os caras foram firmeza. A 23 de maio não tem acostamento e é uma via muito rápida, então eles começaram a fechar o trânsito para pedir ajuda. Muito perigoso, porém necessário naquele momento. Por sorte uma viatura da Polícia Metropolitana, tipo camburão, passava pelo local e parou para me socorrer.



- Sou Tenente do Exército, me leva pro HG...



Os policiais jogaram o que restou da bike na traseira da Vtr e eu embarquei no banco de trás.



- Não sei onde é chefia... explica o caminho aí...



Eu não conseguia falar direito e o motorista tb não conseguia ouvir...



- Entre a próxima à direita, sentido Cambuci...



Tentando ainda não sentir mais dor...



O quê?



- Entre a próxima à direita, sentido Cambuci...



Putz, rrrrrrrrr...



- Não entendi...



Juntei todas minhas forças e gritei...



- Entre a próxima a direita, sentido Cambuci...



E foi assim até a entrada do Hospital Geral do Exército. Repetindo 3 vezes pra cada rua em que o motorista tinha que virar. Se o tombo durou uns 22, 23 minutos o trajeto custou uns 2 anos da minha vida.



No Hospital foi mais trânquilo, mas minha preocupação não era com o talho que eu estava no cotovelo, ou com as costas que pareciam maqueadas pelos caras das "Noites do Terror" do Playcenter, e sim com minha bacia que doía demais e ao meu ver estava fraturada. Nada foi constatado na "chapa", logo fui medicado e liberado.



Ok. Porém com o cair da notie chegou tb a dor. O ferimento do cotovelo mostrou para o que veio e começou a latejar, demais, e mais, e mais... até que em determinado momento levantei-me da cama e, como conta minha mulher, gritei...



- Vc quer doer? Quer? Quer? - Fui falando pro meu braço...



E com raiva dei 3 belos socos no machucado...



- Aaaaaaiiiiii, caralho, puta que o pariu, filho da puta!!!



Até hoje minha mulher ri quando lembra da cena. E eu tb consegui rir um pouco em meio a toda aquela dor. E toca de novo pro HG.



- Moscone, vou ter que te internar. - Disse o Aspirante Médico.



- Faça isto, por favor. Respondi rapidamente.



Foi constatada Erisipela. Lembram que eu caí no meio fio e o cotovelo rasgou dentro da sujeira da guia? Então, deu esta podreira no meu braço. Nem bacia, nem ralado. Só o cotovelo que me fudeu.



Cap Sivaldo & Ten Moscone
Como desgraça pouca é bobagem, na semana em que eu caí de bicicleta estava rolando uma bateria de instruções militares no QG e uma delas era sobre "Parte de Acidente". O militar que se acidenta deve informar a sua Unidade sobre o ocorrido e assim por diante, ou algo do gênero, não lembro mais. O capitão Sivaldo, chefe da minha seção, era especificamente o responsável pela tal palestra e, como todo bom amigo, tratou de basear toda a instrução sobre a "Parte de Acidente" que ele havia preenchido pra mim durante meu afastamento.



Todos os oficiais do Quartel General souberam os detalhes do ocorrido...



Abraço

Compartilhe: